domingo, 15 de novembro de 2009

O projecto da Casa Verdes Anos, nascido em 2004 num apartamento em Lisboa (pintado e decorado com a ajuda das 6 crianças para quem o projecto foi inicialmente pensado), teve início na vontade de um grupo de quatro famílias, unidas pela necessidade de questionar e reequacionar a ideia de escola e educação de que tinham conhecimento, colocando-a em causa. Havia mais interrogações do que certezas e, partindo sempre de uma forma de agir não acomodada, tentaram a modificação de um determinado entendimento do processo educativo e a sua reinvenção.

 

Somos hoje uma associação cultural sem fins lucrativos cuja concepção educativa se baseia, acima de tudo, na Educação Ambiental, no Ensino pela Arte, e na Educação para os Valores, princípios chave que definem os objectivos pedagógicos a desenvolver no trabalho com as crianças.

 

Para o enquadramento teórico destes objectivos, recorremos a três fontes de inspiração: a pedagogia Waldorf, pelo seu lado espiritual, pelo contacto com a natureza, pelo respeito pelos ritmos naturais de cada criança, pelo sublinhar da importância fulcral da educação pela arte, pela sua filosofia alimentar; o Movimento da Escola Moderna, pelo seu lado mais prático do incentivar da participação democrática e do desenvolvimento de um sentido de organização, pela valorização das relações sociais, pela responsabilização individual e pela importância conferida à cooperação; e a Educação pelos Valores, pela sua universalidade, pelo sublinhar do respeito pelo outro e pela abertura à diferença, por ensinar o viver da vida com valores. Nesta síntese, ficam definidos os aspectos mais marcantes de cada uma das três pedagogias que nos uniram ao criar o projecto Verdes Anos, sem que tal enumeração invalide a possibilidade de existirem características importantes nestas ou noutras pedagogias que possam vir a ser aplicadas no trabalho por nós desenvolvido. Este tríptico inspirador conduz-nos à reflexão sobre a criatividade, a autonomia e a solidariedade, o eu, o nós e o outro, o sentir, o querer e o pensar, como fundamentos para a estruturação da personalidade.

 

Princípios orientadores

 

Acreditamos, por e para isso, no ensino do respeito pela natureza, na importância educacional e ambiental de uma alimentação ovo-lacto-vegetariana biológica e bio-dinâmica, na utilização de materiais orgânicos e recicláveis como instrumento pedagógico, na criação de espaços físicos ambientalmente consciente. Temos, ainda, como princípio definidor a abertura ao recurso a medicinas alternativas, por tal atitude concorrer de forma decisiva para o respeito pelos ritmos naturais de cada ser humano e, de forma fulcral, para a preservação do meio ambiente e dos recursos naturais.

 

Acreditamos, também, no ensino através das várias formas de expressão plástica, no ensino pela e da cooperação, no incentivar do sentido de organização e da auto e hetero responsabilização e no ensino pelos e para os valores.

 

Para que estes princípios orientadores tenham uma base sólida, há que ter como alicerce uma equipa unida, com a participação de todos, absolutamente todos os que contribuem para a Casa Verdes Anos. Assim sendo, os elementos da equipa – direcção, educadores/as (de infância e do 1º ciclo), famílias, auxiliares, motoristas, pessoal da limpeza, jardineiros/as – deverão possuir um carácter e uma formação que os torne referência de valores positivos, sendo cada um, por si só, digno da maior consideração e estima por parte de cada um dos outros. Todos os profissionais de apoio ao nosso projecto são também educadores, por as suas atitudes, referências e comportamentos servirem de exemplos que funcionam, inevitavelmente, como referência educativa para as nossas crianças. De um modo geral e mais ou menos informal, estes profissionais criam fortes relações de amizade com as crianças, exercendo grande influência sobre elas, pelo que entre os colaboradores da Casa Verdes Anos deverá haver uma consonância com os valores e princípios pedagógicos praticados na instituição em geral, na sala e, até, na família.

 

Esta forma de intencionalidade educativa está fundada num conceito de formação afectiva, social e cultural do ser humano enquanto pessoa e enquanto cidadão que nele crie autonomia, responsabilidade, solidariedade e um sentido de participação democrática na construção de um destino colectivo, valores que possam concorrer para a dignificação das mais nobres qualidades de cada ser como a Alegria, a Empatia, a Simpatia, o Respeito, a Verdade, a Honestidade, a Justiça, a Generosidade, a Capacidade de Organização, a Paz, a Abertura ao Outro, a Responsabilidade, a Bondade, a Pontualidade, a Coragem, a Tolerância, a Auto-confiança, a Consciência Estética e a Consciência Ambiental, princípios basilares da educação na Casa Verdes Anos.

 

Num projecto sem fins lucrativos sonhado, pensado, criado e sustentado por um grupo de famílias, torna-se, ainda, clara a centralidade do desejo de aproximar as famílias à instituição responsável pelo percurso escolar das suas crianças. Partindo de objectivos evidentemente comuns – o bem-estar emocional, físico e intelectual das crianças –, procuraremos sempre funcionar em consonância com os encarregados de educação, dada a importância desta ligação e dos contributos mútuos para a continuação do crescimento do projecto. É, por isso, fundamental o estabelecimento de uma comunicação directa e objectiva. Vemos, assim, a instituição escolar, efectiva e fulcralmente, como um prolongamento da vida em família, acreditando, como tal, na criação sentida e pensada de um ambiente familiar no dia-a-dia da instituição escolar.

 

É, ainda, objectivo da Casa Verdes Anos promover de forma consistente um relacionamento próximo não apenas com família nuclear das crianças, mas também com a sua família mais alargada, os seus amigos, com a comunidade envolvente da instituição, dentro e fora do espaço da quinta do Palácio de Fronteira, espaço escolhido para a implementação do projecto, e, ainda, com outras instituições da zona de Monsanto, de Lisboa, do resto de Portugal e a nível internacional. Estes contactos poderão ter a forma de celebrações, convívios, sessões de trabalho, encontros de reflexão, troca de experiências, parcerias, protocolos ou outro tipo de apoios.

 

Pretendemos, ainda, ceder a utilização do espaço pontualmente para a realização de actividades organizadas por pessoas externas à Casa Verdes Anos, mas enquadradas por uma filosofia compatível com os princípios defendidos pelo projecto Verdes Anos.

 

Proposta Cultural

 

A importância da Educação pela Arte e a sua contribuição para o completo desenvolvimento da personalidade e para o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais é amplamente defendida pela UNESCO e pela sua organização InSEA (International Society for Education through Art).

 

No projecto Verdes Anos, acreditamos que a expressão cultural e a actividade criativa promovem e sustentam o processo de ser para aprender e de aprender a viver e fazer em e pela sociedade, contribuindo de forma profunda para a competência dos indivíduos, ao longo de toda a sua vida, para responder com confiança e de forma imaginativa, ética, pensada e generosa aos desafios complexos do mundo contemporâneo.  Neste processo, a Educação pela Arte fortifica o processo expressivo, criativo e reflexivo do ser humano, reforça as qualidades únicas de cada cultura, encoraja a capacidade de adaptação e a visão inovadora dos indivíduos, permite o auto-conhecimento e incentiva a partilha de conhecimento entre diferentes pessoas, grupos e culturas, promovendo a compreensão social, inter-cultural e o respeito pelo outro.

 

Trata-se de um processo que, tendo por base a importância da expressão criativa de ideias, experiências e emoções por meio de um vasto leque de media, incluindo a música, as artes performativas, a literatura e as artes visuais, estimula o sentido estético e uma postura criativa e proactiva face à vida e ao quotidiano, uma vez que a abordagem criativa/estética não se resume ao momento de fazer um desenho ou modelagem, mas está presente em todas as actividades do dia, passando naturalmente pela forma como a equipa se relaciona entre si e com as crianças, pelo modo como os diversos assuntos são abordados e pelas actividades propostas pela Casa Verdes Anos.


 Acreditamos, por isso, em dar às crianças espaço e oportunidade para explorar a sua curiosidade natural, o seu entusiasmo e o desejo inato de aprender. Para tal, as crianças devem ter bastante tempo de brincadeira livre, tempo em que podem fantasiar, sonhar, encontrar soluções para problemas ou simplesmente conversar – uma vez que só respeitando o tempo para as questões naturalmente levantadas pelas crianças se possibilita a apreensão do mundo por parte delas –, promovendo, assim, o desenvolvimento do pensamento crítico e a formação da personalidade.


Proposta ambiental

 

Actualmente, começamos a sentir as consequências do efeito de estufa, com as sucessivas secas extremas, inundações repentinas, aumento da temperatura média do ar, subida do nível da água do mar, diminuição da biodiversidade natural, para referir apenas alguns exemplos. Verifica-se o aumento da poluição atmosférica, em grande parte responsável pelo acréscimo de problemas respiratórios no ser humano. Os efeitos do uso cada vez mais intenso de poluentes orgânicos persistentes na agricultura e na indústria  começam já a ser observados ao nível da saúde humana, com o registo do aumento de casos de cancro nos últimos 30 anos e, até, de casos de infertilidade. As causas destas alterações são sobejamente conhecidas e algumas estão até interrelacionados, pelo que não é o nosso intuito discuti-las neste documento, interessando-nos, antes, sublinhar o que pode ser feito ao nível da educação das crianças e da vida de cada um no seu dia-a-dia para contribuir, desde já, para um ambiente melhor e para transmitir às crianças aquilo que hoje sabemos, para que elas possam tomar consciência das causas e efeitos das alterações climáticas e compreender o que poderão fazer para as limitar ou reverter.

Stavros Dimas, Comissário Europeu para o Ambiente, tem apelado aos professores em toda a União Europeia para que apresentem a questão das alterações climáticas aos seus alunos e os incentivem a assinar um compromisso para reduzir as emissões de CO2., por estar convicto de que as crianças do presente são a geração mais afectada pelas consequências nefastas desta situação, ao mesmo tempo que constituem uma esperança efectiva de mudança.

A Casa Verdes Anos procura aliar a Educação pela Arte a preocupações ambientais, propondo também uma Educação pelo Ambiente, ambas sustentadas por uma Educação para e pelos Valores. Esta postura vai, então, muito para além da mera transmissão às crianças de informação de carácter ambiental, passando antes, e de forma primordial, por todas as opções efectuadas no dia-a-dia do projecto tantos em termos pedagógicos quanto, e de modo talvez ainda mais essencial, em termos pragmáticos e éticos. Tal significa fazer do projecto Verdes Anos logo à partida, enquanto instituição, um modelo de respeito pela natureza e de vivência de valores com as crianças, os colaboradores, as famílias e a comunidade mais abrangente, o que passa pelas seguintes opções:

 

- uma alimentação vegetariana biológica;

- separação de lixos, para os reduzir ao mínimo, através, por um lado, da reciclagem do papel, das embalagens, do vidro, de pilhas, telemóveis e consumíveis informáticos e, por outro, da compostagem para a horta pedagógica feita com os resíduos orgânicos;

- utilização de produtos de limpeza  bio-degradáveis;

- escolha de tintas de parede não tóxicas e cera de abelha para encerar o chão;

- utilização de lâmpadas economizadoras;

- escolha de tecidos naturais biológicos;

- uso de materiais pedagógicos recicláveis, reciclados, orgânicos e não tóxicos;

- utilização de mobiliário em madeira;

- escolha de futons de lã e algodão biológicos, feitos à mão com tintas naturais, para o descanso das crianças;

- recurso a energias renováveis;

- reaproveitamento da água usada nas casa-de-banho e cozinha;

- escolha privilegiada de medicamentos naturais para primeiros socorros e outras situações de carácter médico;

- reaproveitamento de materiais sempre que possível.


Partindo do exemplo dado enquanto instituição, podemos, então, passar, para o trabalho mais directamente relacionado com a educação e a instrução das crianças. Este trabalho é baseado na convicção de que é impossível dissociar a interacção social da interacção ambiental, procurando, por isso, criar e alterar comportamentos por meio da transmissão de valores sociais para uma nova postura ética, que passam pelos objectivos e estratégias pedagógicos que passamos a descrever:


- implementar para todas as crianças, independentemente da sua idade, uma vivência sustentável e atenta, diária e sentida, do mundo natural, dado que as crianças assimilam as teorias por via de exemplos e de uma prática constante, não bastando abordar verbalmente os assuntos;

 

- porporcionar uma sólida observação e vivência da Natureza, aliada à procura da beleza, da criatividade e da expressão plástica, para a expressão e construção da personalidade única de cada criança, processo que visa desenvolver cidadãos ambientalmente cultos que possam contribuir para a economia global, com as ferramentas, aptidões, conhecimentos e inclinações para tomar decisões bem informadas, exercendo os direitos e responsabilidades cívicas enquanto membros de uma comunidade;

 

- estimular o contacto diário com a natureza e a procura de um sentido estético e funcional no que as rodeia, permitindo que as brincadeiras e os projectos surjam a partir dos elementos que trazem dos, e criam nos, seus passeios (cabanas com paus, folhas, caruma, aviões e barcos com troncos e pedras, etc.);

 

- tirar máximo partido do espaço escolhido para a implementação do projecto Verdes Anos, proporcionando como área privilegiada de brincadeira a floresta, o jardim com terra e plantas e a zona da horta pedagógica, espaço onde as crianças podem aprender pela experiência a identificar os elementos naturais que as rodeiam, a distinguir as plantas decorativas das daninhas, as comestíveis das venenosas e onde podem lidar diariamente com pequenos insectos e animais aprendendo e compreendendo naturalmente as características de cada um e o respeito por todas as formas de vida, desenvolvendo uma sensibilidade pela biodiversidade essencial à criação de comportamentos favoráveis à sustentabilidade ambiental;


- permitir que as crianças brinquem todos os dias no jardim, mesmo quando chove ou está mais frio, observando e experimentando a passagem das estações do ano na florestação, nas árvores de fruto e na terra;

 

- incentivar a alimentação com legumes e frutos da época (alguns plantados e/ou colhidos pelas próprias crianças), para que as crianças aprendam a valorizar e respeitar a diversidade e os ritmos da natureza, aprendizagem potenciada, ainda, pelo acesso a plantas e árvores de maior porte por meio do qual conseguem perceber o tempo necessário para o crescimento das plantas;

 

- ir para além da experimentação da natureza, conversando com as crianças sobre as questões ambientais e sobre o que pode ser feito no dia-a-dia de cada um para respeitar o ambiente;

 

- estabelecer uma aprendizagem também enquadrada por histórias e canções que não apenas descrevem os ciclos naturais como vão sendo diferentes em função da passagem das estações do ano;


- proporcionar actividades diárias que passem também pela manipulação de materiais naturais e pela percepção do potencial artístico desses materiais, manipulando blocos e lápis de cera de abelha, cera de abelha para modelar, aguarelas, barro, massa de pão, lã e outras fibras naturais;

 

- incentivar a participação das crianças na separação de lixos, ensinando-lhes a importância de guardar as cascas da fruta que comem todos os dias e outro lixo orgânico para a compostagem da horta, fazendo com que experimentem de forma efectiva o conceito mais amplo de reciclagem, baseado na ideia de que o “lixo” também pode dar frutos;

 

- perceber que a relação que as crianças têm com a natureza não as desliga das regras a observar no espaço urbano, uma vez que o convívio com a natureza as torna mais atentas àquilo que é o respeito pelo espaço público (quer urbano quer rural) e à desumanização do mesmo;

 

- promover o respeito pelos ciclos da natureza, pela individualidade de cada criança, por cada pessoa ligada ao projecto, dentro e fora dele, e pela sociedade e o mundo como um todo, como forma de incutir em cada ser humano com que trabalhamos o respeito pela vida.

 

Como objectivo último e mais geral, gostaríamos de aumentar as características ecológicas do espaço de implementação do projecto Verdes Anos,  com a colocação de painéis solares, a criação de um sistema mais eficaz e sistemático de recolha de água dos lavatórios, banheiras e lava-louças para os autoclismos, aumentar o uso de tintas ecológicas para a manutenção de interiores e exteriores e de vernizes e ceras ecológicos para todas as madeiras, e, até, desencorajar o recurso a pesticidas de síntese em toda a quinta onde nos situamos, por parte das pessoas que nela habitam e nela cultivam diferentes plantas e vegetais, para referir apenas alguns exemplos do que ainda pode ser melhorado. Só assim poderemos propor de forma cada vez mais efectiva e abrangente uma escola filosófica e fisicamente ambiental e artística, na qual as palavras e acções se espelham no espaço e este alarga e cimenta a consciência.

 

sábado, 26 de setembro de 2009

Bem vindos

Sejam bem vindos ao blogue da Casa Verdes Anos!